domingo, 7 de outubro de 2012

Disciplina Leitura e Produção Textual- Profª Drª Nilsa Brito
Resenhas- Turma 2011.


As resenhas que  serão publicadas no Blog da FAEL, a partir desta semana, foram produzidas pelos alunos da turma de Letras-Português/2011,  durante a disciplina Leitura e Produção Textual.
Adotando procedimentos de retextualização, durante a disciplina, duplas de alunos leram diferentes  obras literárias (gênero romance ou conto) e, a seguir, dedicaram-se à resenha da obra lida. Após a primeira escrita, os textos foram submetidos à avaliação da turma, em sala, reescritos pelas duplas, e agora chegam aos leitores, com informações resumidas da obra lida.
 Sabemos que há ainda um longo percurso de escrita a ser trilhado por cada autor, em busca da superação de algumas questões de texto, mas esta é uma iniciativa que objetiva  inserir os alunos em processos de escrita que ultrapassem a sala de aula universitária! Boa leitura!
 Nilsa Brito Ribeiro – Profa. responsável pela disciplina Leitura e Produção Textual- LA/2011.
 RESENHA- 01
Ana Paula Lopes de Freitas
Avelino Sousa Rodrigues
HOLANDA, Chico Buarque de. Budapeste. São Paulo:Companhia das Letras, 2003.

Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Cantor e compositor, publicou diversas peças e alcançou um conceituado renome na literatura nacional.  No romance Budapeste, Chico Buarque narra a história de José Costa, apresentado, inicialmente, como sócio-proprietário da Cunha & Costa Agência. Ao longo do romance, José desloca-se entre as cidades do Rio de Janeiro e Budapeste. A narrativa também possui um constante jogo de duplicidades e isso vai ser característica recorrente na vida de Costa que é narrador-personagem. Ele também se satisfaz em saber que seus textos estão sendo lidos por outras pessoas que não o conhecem, já que  opta por viver no anonimato.
Além da agência, Costa possui no Brasil uma família: é casado com Vanda e tem um filho chamado Joaquinzinho. Em Budapeste, conhece Kriska em uma livraria, quando tentava aprender algumas sentenças da língua Húngara. A mulher que conhecera é uma professora que mesmo sem conhecê-lo balançava a cabeça em atitude de reprovação daquela inútil tentativa de Costa em querer aprender a língua daquele país.  Para ele, comunicar-se na língua desconhecida significava a certeza de sua permanência em Budapeste.
Os fatos vividos por Costa a partir do momento em que conhece Kriska se dão por gradação, visto que não muito tempo depois do encontro na livraria os dois passam a se encontrar na casa dela; ele com o objetivo, inicial, de aprender a falar algumas palavras, ela, provavelmente, tentando apagar algumas vagas lembranças do seu ex-marido, que há pouco tempo a largara.  Não demorou muito até que os dois já estavam bastante íntimos. A língua, nessa perspectiva, foi uma desculpa para esse casal e a ponte que possibilitou o encontro.   
A afirmação de que as aulas eram apenas desculpas para o encontro deles pode ser confirmada pelo seguinte aspecto: Costa, apesar do interesse pelas aulas, não consegue fixar sua atenção na explicação, vez ou outra é pego admirando aquela mulher, sem nenhum real interesse pela aula.  Além disso, o caráter duplo da narrativa, como já mencionado, é também confirmado pelo fato do narrador personagem possuir dois nomes: no Rio de Janeiro é chamado de José Costa, em Budapeste, Zsoze Kosta. Tem duas línguas, duas casas, duas pátrias. O que não muda ou diminui em José, nos dois lugares, é o interesse pela escrita.
É interessante destacar que foi um problema com a escala de vôo quando ele voltava de um Congresso Internacional de Escritores Anônimos ghost writers na Turquia, fato que possibilitou todas essa narrativa de sua vida, Foi por acidente que José Costa teve o primeiro contato com Budapeste, fato que transformou por completo sua vida.
Durante o café, no país ainda desconhecido, José Costa saboreia os pães avermelhados e é informado de que os mesmos são de abóbora; após degustá-los, fica com a sensação positiva do pão e, logo, do país.  Ao sobrevoar Budapeste, olhando da janela do avião, José fica deslumbrado com os tons que cercam a cidade, pois em sua concepção a mesma era cinzenta e de pouca luminosidade, porém se depara com um lugar de tom amarelado. Essa é a segunda boa impressão da cidade.
Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio, mas não era azul, era amarela, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela (BUARQUE, 2003, p.11.)
Após alguns meses longe de casa, vivendo intensamente seu amor com Kriska, Costa sente vontade de retornar ao Rio de Janeiro para os braços de Vanda, com a certeza ilusória de que ela mudara, pois o relacionamento deles era áspero e frio. Ao reencontrá-la no Rio de Janeiro, sente a mesma frieza de outrora, e, apesar de passarem a viver novamente na mesma casa, estabelecem pouca ou nenhuma comunicação. Diferente da perspectiva mencionada há pouco, em que a língua é o ponto de partida para o encontro entre José Costa e Kriska, aqui a língua assume uma nova roupagem, a comunicação vai ser negada em virtude de um problema afetivo. Por isso, a língua nesta relação é o elemento que marca a incomunicabilidade entre os dois.
Ao desprezar e sentir-se desprezado por Vanda, Costa reaviva novamente a sua paixão por Kriska e deseja fortemente estar mais uma vez com ela em Budapeste, e é isso que ele faz: volta para lá, porém, surpreende-se com a rejeição de Kriska; isso porque quando decidiu partir de volta ao Rio, ela sofrera demasiadamente a sua ausência, uma vez que José retornou ao seu país de origem sem uma explicação legítima.
Eu tinha alinhavado na cabeça um texto sincero em meus sentimentos por ela, além de rápida explicação para minha partida. Mencionaria de passagem um filho enfermo, uma companheira idosa, entre ouros aborrecimentos em meu longínquo país (BUARQUE, 2003, p.72).
   Para (re) conquistar a confiança e o amor dela, José começa a trabalhar no clube de escritores húngaros. É, então, incumbido de escrever a biografia de um alemão chamado Krabbe, que pretende discorrer sobre suas experiências amorosas com estudantes, situações cotidianas de sua vida e fatos marcantes em um país distante do seu. Esse pode ser considerado o momento ápice da história, pois o narrador-personagem vê a possibilidade de escrever sua autobiografia, relatando tudo o que passou em Budapeste, mas sempre preferindo o anonimato. Tanto que, apesar de estar escrevendo sua própria história, ele não a publica em seu nome, mas sim, como se fosse a história de Krabbe. Costa evidencia nessa história como adotou e amou o seu segundo idioma, sua relação intensa e amorosa com a sua professora Kriska. Com isso, Pode-se observar que José Costa encontra na escrita do livro em alemão uma tentativa de fuga, a busca das respostas para sua solidão, ocasionada, entre outros aspectos, pelo temporário desprezo de Kriska.
 RESENHA-02
            HOLANDA, Chico Buarque. Leite derramado.
                                                                    São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 1944, Francisco Buarque de Holanda é considerado um artista renomado no âmbito nacional, consagrado como compositor, letrista, romancista e dramaturgo. Em 1962, ganha destaque como cantor e tem seu início de carreira como escritor, alcançando, posteriormente, destaque na atividade literária, quando publica o romance Leite Derramado em 2010.
   A obra “Leite Derramado” é uma narrativa em primeira pessoa que mexe com o imaginário do leitor, envolvendo-o na medida em que ocorre o desenrolar dos acontecimentos.  Este romance retrata a vida de Eulálio Montenegro de Assumpção, um senhor de idade avançada que se encontra no leito de um hospital, à beira da morte, sofrendo com os efeitos das drogas utilizadas para diminuir suas dores. No entanto,  apesar de seu estado de debilidade, ainda consegue chamar a atenção das enfermeiras e de todos que passam por ali, contando sua história que faz alusão aos seus antepassados, ressaltando sempre de forma esplendorosa sua tradicional família, em vários momentos da história do Brasil,  principalmente o político.             
Deforma totalmente descontrolada, o narrador não utiliza o tempo cronológico na narrativa, relatando com propriedade o que vivenciou ao longo de sua vida; essa aparente desordem dos fatos ocorre devido sua memória não se encontrar em perfeito estado, já que ele a personagem é um senhor de cem anos e possui a memória quase desfalecida, embora ainda consiga retratar seus tempos de juventude, mesmo sofrendo terríveis dores.
Isso faz com que Eulálio às vezes nos deixe com dúvidas quanto ao tempo da narrativa, pois as lembranças vagas e os pensamentos presentes são embaralhados em sua cabeça, como ele próprio relata nesta passagem.
Aquela que veio me ver, ninguém acredita, é minha filha. Ficou torta assim e destrambelhada por causa do filho. Ou neto, agora não sei direito se o rapaz era meu neto ou tataraneto ou o quê. Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça...[....] olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até sem graça de perguntar seu nome de novo ( HOLANDA, 2010, p.14.)
Um aspecto importante é que o personagem demonstra ser bastante rabugento, reclama com as enfermeiras e ao mencionar histórias sobre o seu passado, faz críticas ao lugar em que está no momento: possui um neto com boas condições financeiras e encontra-se jogado em um quarto de hospital com outros enfermos; sua preferência seria que seu neto arcasse com o tratamento e o internasse em uma casa de saúde tradicional, de religiosas.
Podemos perceber claramente que sua família no passado era detentora de grandes riquezas, entretanto caiu em decadência e este tenta sobreviver de seu sobrenome, este é um exemplo de pessoas advindas da alta classe social e que apesar de falidos vivem de aparências e não aceitam perder sua posição social.
Outro aspecto importante tratado na obra é o preconceito racial: em alguns trechos pode-se notar que o avô da personagem era racista, sem contar sua mãe que era contra sua namorada ser de cor mais escura, como mostram as passagens da narrativa em que  seu avó deixa implícito que a África seria o lugar dos negros e sua mãe demonstra preconceito com a raça negra. 
 Meu avó foi um figurão do império, grão-maçon e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África... (HOLAND,2010, p. 15).
Nem a minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha das congregadas marianas... (HOLANDA, 2010, p. 20).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        
 Apesar da narrativa ser de um senhor centenário que sofre variações a todo instante, os personagens não possuem descrições detalhadas ou completas, ele conta como conheceu seu amor Matilde mas não a descreve claramente, demonstrando por ela um ciúme exagerado que gera uma série de desentendimentos e desconfianças, terminando em desastre.
O curioso nesta Obra é que o leitor tem que desvendar em alguns momentos com quem o centenário está conversando, já que seus pensamentos embaralhados pode acarretar a ideia de que esses acontecimentos não tenham “sentido”, causando certo estranhamento para alguns leitores. Esse efeito é devido à tamanha expressividade, combinada com o forte vocabulário de palavras que por vezes é utilizado para o personagem relembrar de suas primeiras experiências e desejos afetivos, ou para fazer relação a sua sexualidade, aspecto esse que vai se intensificando ao longo da trama.
O título da obra “Leite Derramado” remete ao fim do personagem Eulálio de Assumpção que morre no hospital aos 100 anos por causa de uma doença que não é relatada no livro.
É uma obra surpreendente e diferente, a qual prende a atenção do leitor e o leva a refletir acerca de suas próprias atitudes, um livro instigante onde o autor, como num jogo de quebra-cabeças espalha as peças para que o leitor as encaixem e tire suas próprias conclusões.

Alessandra Marinho
Samara Nascimento

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